
Neste 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, a atenção se volta não apenas para a inclusão social e educacional das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas também para a necessidade de um cuidado em Saúde Bucal mais acolhedor, planejado e humanizado. No campo da Odontologia, o atendimento de crianças autistas exige preparo técnico, sensibilidade e ambiente adaptado, especialmente nos consultórios de Odontopediatria. De acordo com dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o que corresponde a 1,2% da população. A prevalência é maior entre os homens (1,5%) do que entre as mulheres (0,9%), e o pico de diagnóstico ocorre na infância, especialmente entre meninos de 5 a 9 anos, com uma taxa de 3,8%. O diagnóstico é feito por neuropediatras e psiquiatras.
De acordo com informações divulgadas pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), o atendimento odontológico ao paciente com TEA deve considerar as particularidades individuais de cada caso, incluindo nível de suporte, sensibilidade sensorial, comunicação e necessidade de adaptação gradual ao consultório. Em muitos casos, a criança precisa de mais de uma visita para se familiarizar com o ambiente, e o tratamento deve começar, sempre que possível, por estratégias não farmacológicas e com apoio da família.
A Odontopediatria tem papel fundamental nesse processo. Por ser a especialidade voltada ao cuidado da Saúde Bucal de bebês, crianças e adolescentes, o Odontopediatra está entre os profissionais mais preparados para conduzir esse acolhimento inicial, criar vínculo com a criança e orientar pais e responsáveis sobre prevenção, higiene e rotina de cuidados. A especialidade integra o conjunto de áreas regulamentadas pela Odontologia brasileira, com atuação reconhecida pelo sistema do Conselho Federal de Odontologia (CFO) / Conselho Regional de Odontologia de SP (CROSP). Prova disso é que o CROSP possui uma Câmara Técnica voltada a este atendimento chamada de Câmara Técnica de Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais.
Para a ACDBS, o tema reforça a relevância da Odontopediatria como especialidade fundamental no cuidado às crianças com TEA. O atual Presidente da Entidade, Dr. Osvaldo Sérvulo da Cunha, odontopediatra com mais de 30 anos atuando na área, destaca que o atendimento humanizado é parte essencial da prática odontológica. “O cuidado com crianças autistas começa muito antes do procedimento. Ele envolve acolhimento, preparo da família, escuta atenta e um ambiente que transmita segurança. A Odontopediatria tem um papel decisivo nesse processo”, afirma.
O Secretário-Geral da ACDBS, Dr. Gilberto Ferreira Motta, também ressalta a importância da especialidade no suporte a esses pacientes. “A Odontopediatria é uma área preparada para acompanhar a criança desde cedo, o que é especialmente importante no caso de pacientes com TEA. Quanto mais precoce for o vínculo com o consultório, maiores são as chances de um atendimento tranquilo, preventivo e eficaz”, destaca.
Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, e membro da Câmara Técnica do tema no CROSP, a Cirurgiã Dentista Dra. Adriana Zink, explica que indivíduos com TEA frequentemente apresentam dificuldades de comunicação verbal e não verbal, o que pode incluir dificuldades em manter uma conversa, compreender gestos, expressões faciais e expressar necessidades e emoções:“Além disso, esses indivíduos podem ter dificuldades em entender normas sociais, fazer amizades e, muitas vezes, evitam o contato visual, o que torna a interpretação das emoções dos outros desafiadora”.
Em pacientes com TEA, podem ser observados comportamentos como o alinhamento de objetos, a repetição de palavras ou frases e o seguimento de rotinas rígidas. Mudanças na rotina podem causar desconforto e reações emocionais intensas. Muitos também apresentam interesses restritos, com foco intenso em uma atividade ou assunto específico. A hipersensibilidade sensorial é outra característica, com reações extremas a estímulos como luzes, sons e texturas, seja por hipersensibilidade ou hipossensibilidade.
A Dra. Adriana ressalta que as características do TEA variam significativamente entre os indivíduos, e o transtorno é classificado em níveis de suporte 1, 2 ou 3. “A identificação precoce é crucial para intervenções eficazes que podem melhorar a qualidade de vida e promover o desenvolvimento da autonomia”, afirma.
Desafios no tratamento
O Cirurgião Dentista enfrenta desafios específicos ao tratar pacientes com TEA, pois cada caso exige abordagens individualizadas. O profissional especializado é capaz de identificar as necessidades do paciente e realizar as adequações necessárias para o atendimento. Em alguns casos, pode ser necessário o uso de sedação ou a realização de atendimentos em ambiente hospitalar. Para casos mais simples, uma comunicação assertiva pode ser suficiente. “O Odontopediatra precisa ter um conhecimento básico sobre o TEA, porque crianças sem diagnóstico não irão procurar um especialista em Odontologia para pacientes com necessidades especiai”, alerta a Dra. Adriana.
Comunicação no atendimento odontológico
O uso de materiais estruturados, como pistas visuais e figuras, é uma estratégia eficaz quando há comprometimentos cognitivos, dificuldades de comunicação ou de processamento sensorial. Esses recursos visuais ajudam a aumentar a autonomia e reduzem a ansiedade durante o atendimento. Eles incluem sequências visuais de atividades, rotinas diárias e cartões com imagens que representam ações, objetos ou locais.
Dra. Adriana explica que muitos indivíduos com TEA processam informações visuais com mais facilidade do que informações verbais. “Figuras e vídeos funcionam como mediadores na comunicação e na aprendizagem. Iniciativas clínicas e educativas, como a odontologia inclusiva e o uso de pistas visuais estruturadas, têm ampliado as possibilidades de acesso ao cuidado para pacientes com TEA” , conclui Dra. Adriana.
É essencial capacitar as equipes de atenção primária para o acolhimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista.
Atendimento humanizado
A rotina de atendimento de uma criança autista no consultório odontopediátrico deve ser construída com planejamento, paciência e previsibilidade. Entre as recomendações destacadas por entidades da área, estão a organização do ambiente, a comunicação simples e objetiva, o uso de técnicas lúdicas e a adaptação progressiva às etapas do atendimento.
Em situações em que o paciente apresenta maior dificuldade de cooperação ou demanda procedimentos mais complexos, pode ser necessário recorrer a estratégias adicionais, como sedação ou atendimento hospitalar, sempre com profissionais habilitados e em ambiente apropriado. Ainda assim, a prioridade deve ser sempre a prevenção, para evitar intervenções mais invasivas no futuro.
A participação da família é outro ponto decisivo. Pais e cuidadores ajudam na criação de uma rotina de higiene bucal, no preparo da criança para as consultas e na continuidade dos cuidados em casa. Essa parceria fortalece a adaptação ao atendimento e contribui para melhores resultados clínicos e comportamentais.
Inclusão também é Saúde
A conscientização sobre o autismo também passa pela garantia de acesso a serviços de saúde com respeito, acolhimento e preparo profissional. No caso da Odontologia, isso significa reconhecer que crianças com TEA têm direito a um atendimento individualizado, com as adaptações necessárias para que o cuidado seja efetivo e seguro.
Nesse cenário, a Odontopediatria se consolida como uma aliada importante na promoção da saúde bucal de crianças autistas, unindo conhecimento técnico, abordagem humanizada e atuação preventiva. Mais do que tratar dentes, o profissional ajuda a construir experiências positivas no consultório e a reduzir medos, desconfortos e barreiras de acesso ao cuidado.
Acolhimento e prevenção
Especialistas apontam que o atendimento de crianças autistas pode exigir estratégias como consultas mais curtas, comunicação objetiva, adaptação sensorial, uso de recursos lúdicos e participação ativa dos responsáveis. Em alguns casos, o paciente precisa de um período maior de familiarização com o espaço antes da realização de procedimentos clínicos.
A prevenção também é um ponto central. O acompanhamento odontopediátrico regular contribui para evitar tratamentos mais invasivos no futuro e fortalece a rotina de higiene bucal em casa, com orientação contínua à família. Quando necessário, o profissional pode indicar estratégias complementares, sempre respeitando a individualidade da criança.
A ACDBS reforça que a inclusão passa também pela saúde. Garantir acesso a um atendimento odontológico qualificado, com estrutura adequada e profissionais capacitados, é uma forma concreta de promover dignidade e cuidado às crianças autistas e suas famílias.
Dia Mundial de Conscientização do Autismo
O dia 2 de abril foi escolhido como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo para ampliar o debate sobre o TEA, combater preconceitos e incentivar a inclusão das pessoas autistas em todos os espaços da sociedade. A data integra o calendário internacional de mobilização sobre o tema e tem como objetivo chamar atenção para os direitos, as necessidades e a importância do diagnóstico e do acompanhamento adequados.
No contexto da Saúde, a data também reforça a necessidade de profissionais capacitados e ambientes preparados para o atendimento humanizado de pessoas autistas, especialmente crianças. Na Odontopediatria, isso é ainda mais importante, pois o acompanhamento precoce contribui para criar vínculo, reduzir a ansiedade e garantir cuidados preventivos desde os primeiros anos de vida.
